Amarga Navidad
Após a sua incursão internacional com O Quarto ao Lado, a narrativa mais convencional entre as últimas obras do realizador, Almodóvar regressa aos guiões complexos. E regressa também a um dos seus temas preferidos: a autoficção. Se em filmes como Má Educação ou Abraços Partidos tinha começado a flertar com o tema, foi com Dor e Glória onde assumiu abertamente falar sobre si próprio. Mas se naquela obra-prima se notava um Almodóvar condescendente consigo mesmo, talvez demasiado vítima da sua própria lenda, aqui algo mudou: ele é o seu próprio inimigo, um vilão que vem acertar contas com o alter ego do seu talento. Nesse sentido, Natal Amargo é um filme estranho e tortuoso, cheio de miragens, remorsos e duplos sentidos. Um Almodóvar sentado no divã do psicanalista, a brincar com as oscilações das suas personagens, a questionar os desvios onde a sua própria escrita os coloca. É também a obra com a qual reafirma um estilo extremamente depurado que, liberado de exageros estéticos, se concentra em apostar o seu impacto emocional numa despida dança de primeiros planos.
Sessões
- | Sala Manoel de Oliveira
